Acordar com o coração acelerado e a mente a mil tornou-se comum para muitas pessoas. Conheces aquela sensação de que o dia ainda nem começou e já estás atrasada, já devias ter feito, a lista de afazeres já se multiplicou na tua mente? Se sim, não estás sozinha. Muitas mulheres começam o dia num estado de alerta constante, como se tivessem de resolver todos os problemas do mundo antes mesmo de escovar os dentes. E o pior é que achamos que isto é o normal. Mas não é inevitável. Há pequenas mudanças que podem fazer toda a diferença.
O nosso corpo segue um ritmo circadiano, um ciclo biológico de 24 horas que regula o sono, os níveis hormonais, o humor e até a digestão. Parte desse processo envolve a libertação de cortisol logo pela manhã — uma hormona essencial que nos ajuda a acordar, a ter energia e foco.
Mas aqui entra o problema: este pico de cortisol, que devia ajudar-nos a começar o dia com vitalidade, é muitas vezes amplificado por comportamentos que adicionam stress desnecessário. Acordar e ir imediatamente para o telemóvel, ver notificações, emails, mensagens, notícias ou redes sociais, ativa áreas do cérebro relacionadas com a sensação de ameaça, comparação e urgência.
Ou seja, antes mesmo de te levantares da cama, o teu sistema nervoso já está a atuar como se estivesse em modo de sobrevivência.
O mesmo é válido para ligar a TV ou o computador. Se estás a receber alguns dos estímulos mencionados, estás a criar stress desnecessário.
Usar ecrãs nas primeiras horas do dia pode parecer inofensivo — afinal, é só “dar uma vista de olhos” — mas o impacto neurológico é real e documentado.
Diversas investigações mostram que:
- A exposição precoce à luz azul dos ecrãs afeta a produção de melatonina, interferindo com o ritmo natural do corpo.
- O consumo de conteúdos altamente estimulantes (notícias, redes sociais, mensagens de trabalho) ativa o sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de “luta ou fuga”.
- Esta ativação precoce pode contribuir para ansiedade matinal crónica, dificuldade de foco, irritabilidade e sensação de exaustão ainda antes do meio-dia.
Além disso, as primeiras coisas que vês de manhã tendem a influenciar o teu estado emocional durante o resto do dia — como uma espécie de “impressão emocional inicial”. Se começas com comparação, pressão e excesso de informação, como achas que o resto do dia se irá desenrolar?
A boa notícia? O simples gesto de não usar ecrãs na primeira hora do dia pode mudar completamente a forma como te sentes, pensas e ages ao longo das próximas 24 horas.
Este momento, ao acordar, é precioso. É quando o teu cérebro está mais plástico — ou seja, mais recetivo a criar novas ligações, a integrar intenções e a consolidar hábitos. Se nesse espaço colocas silêncio, presença, autocuidado… estás a plantar sementes para o teu equilíbrio interno.
Não precisa de ser nada complicado nem rígido. Beber um copo de água com atenção plena. Respira fundo três vezes antes de sair da cama. Escreve num caderno, sem filtros. Fazer alongamentos durante 5 a 10 minutos. Sentar-te em silêncio e escutar como te sentes. Sair para apanhar um pouco de luz natural, nem que seja à janela.
Mais do que o que fazes, o que importa é como começas: contigo, presente por inteiro.
Quando escolhes começar o dia com intenção e longe das exigências do mundo lá fora, a tua mente acalma – há menos ruminação e confusão mental. O teu corpo descontrai. A tua criatividade desperta, pois sem o ruído externo, começas a ouvir mais as tuas ideias. Sentes-te mais dona do teu tempo. Começas a agir, em vez de reagir. Podes até notar uma mudança subtil mas poderosa: começas a confiar mais em ti. Porque estás a escolher-te logo no início do dia.
Não se trata de ter uma “manhã perfeita”, mas sim de criar um espaço onde possas simplesmente existir antes de mergulhares no mundo lá fora. Ao deixares os ecrãs de lado durante a primeira hora do dia, estás a escolher respeitar o teu corpo, a tua mente e o teu ritmo. Estás a dizer: “Eu mereço começar o dia comigo, em paz.”
Experimenta durante alguns dias. Não como mais uma obrigação, mas como um ato de carinho. Talvez encontres aí uma calma que andavas a procurar há muito tempo.
