Durante muitos anos, quando se falava de stress, ansiedade ou trauma, o foco estava quase sempre nos momentos difíceis. Falava-se de gatilhos (triggers), de padrões automáticos, de reações desproporcionadas e da forma como certas experiências nos colocam rapidamente em modo de alerta. Tudo isto continua a ser relevante, mas hoje sabemos que esta visão está incompleta. Há outra parte fundamental da equação que durante muito tempo foi ignorada: os momentos em que o corpo se sente seguro. É aqui que entram os glimmers.
O que são glimmers?
O termo glimmers surge no contexto da regulação do sistema nervoso e descreve pequenos momentos do dia-a-dia que o corpo reconhece como seguros, agradáveis ou tranquilizadores. Não se trata de grandes acontecimentos nem experiências extraordinárias. São, na maioria das vezes, subtis, simples e até fáceis de passarem despercebidos para quem não está atento.
Um glimmer pode ser um suspiro espontâneo, o sol a bater no rosto, um momento de silêncio depois de muito ruído, a sensação de conforto ao sentar-te num sitio confortável ou familiar, ou uma interação em que te sentes compreendida ou vista. O que define um glimmer não é a intensidade do momento, mas a forma como o sistema nervoso o interpreta: como ausência de ameaça.
Glimmers vs triggers
Para compreender a importância dos glimmers, ajuda perceber o contraste com os triggers (gatilhos). Enquanto um trigger ativa o sistema de stress e coloca o corpo em modo de alerta, um glimmer faz exatamente o contrário: envia sinais de segurança.
Ambos existem na vida de qualquer pessoa. A diferença é que o cérebro humano está tendencialmente mais treinado para detetar o perigo. Conseguimos ver isto quando, mesmo num dia relativamente calmo, tendemos a fixar-nos no que correu mal, no que nos incomodou ou no que poderia ter sido diferente.
Com o tempo, esta atenção constante ao stress mantém o corpo num estado de alerta prolongado, mesmo quando não há perigo real. Os glimmers não eliminam os triggers, mas ajudam a equilibrar o sistema, lembrando o corpo (e nós mesmas!) de que também existem momentos seguros.
Porque é que quase não reparamos nos glimmers?
O facto de não repararmos nos glimmers não é tanto uma distração, mas mais uma falta de prática junto com biologia. O cérebro humano evoluiu para nos manter vivos, não necessariamente para nos manter tranquilos. Por isso, dá prioridade ao que pode representar ameaça e não presta tanta atenção àquilo que é neutro ou agradável.
O problema surge quando este padrão se torna permanente. Quando passamos dias, semanas ou anos quase exclusivamente focadas naquilo que ativa o sistema nervoso, o corpo perde a capacidade de relaxar espontaneamente. É aqui que começam a surgir sintomas como tensão constante, irritabilidade, fadiga emocional e aquela sensação de estar sempre “ligada”.
Aprender e praticar notar os glimmers é, por isso, uma forma de reeducar o sistema nervoso.
A importância dos glimmers na regulação do stress
Os glimmers atuam como pequenas pausas fisiológicas ao longo do dia. Sempre que o corpo reconhece um momento de segurança e esse momento é conscientemente notado, ocorre uma micro-regulação do sistema nervoso. A respiração abranda, a tensão diminui e o corpo sai, ainda que por instantes, do modo de sobrevivência.
Isoladamente, cada glimmer pode parecer insignificante. No entanto, quando estes momentos se repetem, começam a criar um efeito cumulativo. O corpo aprende que não precisa de estar constantemente em alerta e passa a recuperar mais rapidamente após situações stressantes.
É por isso que os glimmers não mudam a vida de um dia para o outro, mas mudam profundamente a forma como vivemos o dia-a-dia.
Notar glimmers tem de ser uma prática consciente
Muitas pessoas dizem que na sua vida não existem momentos assim. Talvez estejas tu própria a pensar isso neste momento. Na maioria dos casos, eles existem; simplesmente não estão a ser registados. Notar glimmers não é uma característica inata, é uma competência que se desenvolve.
Essa prática começa com algo simples: abrandar o suficiente para reconhecer quando algo sabe bem. Parar alguns segundos, respirar nesse momento e permitir que o corpo o registe. Dar nome à sensação ajuda o sistema nervoso a integrar a experiência, em vez de passar imediatamente para a tarefa seguinte.
Com o tempo, esta atenção muda e o corpo começa a reconhecer mais facilmente os sinais de segurança.
Não anulam dificuldades, mas mudam a relação com elas
É importante esclarecer que trabalhar com glimmers não significa ignorar problemas, emoções difíceis ou situações desafiantes. Significa criar um sistema interno mais regulado para lidar com tudo isso.
Quando o corpo tem acesso frequente a sinais de segurança, os desafios tornam-se menos esmagadores. Há mais espaço entre o estímulo e a reação, mais clareza nas decisões e maior capacidade de escolha consciente.
Os glimmers lembram-nos de algo essencial: nem tudo é urgência, nem tudo é ameaça. E quando o corpo aprende isso, a vida começa a ser vivida a partir de um lugar mais calmo, mais presente e mais sustentável.
Não podemos controlar todos os gatilhos que a vida traz. Mas podemos aprender a reconhecer aquilo que nos regula.
E isso, por si só, já muda muita coisa.
